U M A N O I T E DE F O R C A D O S

A publicidade à corrida do dia 21 na Praça do Campo Pequeno, dizia – “6 bonitos toiros” de Manuel Veiga. Afinal, nem no fisico nem na bravura corresponderam ao anunciado. Contudo deu-me ocasião para, mais uma vez, confirmar a teoria que tenho, alicerçada num saber de experiência feito, de que são toiros de baixa qualidade que fazem brilhar os Forcados. Parece mal dizer isto? Talvez até considerem, ser uma forma jurássica, de ultrapassado machismo, ter esta opinião. Pois seja! Apesar disso não deixarei de a emitir. Entendam-na como quiserem.

De uma forma geral, os toiros hoje, já não obrigam o pegador a entrar em terrenos proibitivos para provocar a investida. O que representava provação suplementar – observar os músculos do toiro a prepararem-se para atacar, pressentir-se a sua agressividade e…aguentar, não é nada cómodo. Era, e é, a apelidada “pega ao sopé”.

Havia também as “pega à meia volta” e a “à ponta do capote”. A primeira, potencialmente a mais “fácil” (?) – o pegador aproximava-se do toiro pelos quartos trazeiros e batia as palmas. O toiro voltava-se mas, apanhado de surpresa, sem espaço para ganhar balanço e sem tempo para se concentrar na investida, perdia agressividade. Em parte recuperada, pelo facto de ser feita a toiros que haviam dado pouca lide, tinham poupado forças. A segunda, “à ponta do capote”. Embora mais trabalhosa, acabava por ser a menos contundente. O Bandarilheiro trazia o toiro embebido no capote, de modo a que à saída de um passe, o Forcado aparecesse diante do toiro. Sem espaço para ganhar balanço, nem tempo para preparar a investida, era a pega que menos perigo tinha. Todavia,estas são modalidades de pega hoje desnecessárias.

Subsiste a “pega de cernelha”, também, injustamente aliás, apelidada de pega de recurso. Isto por só ser utilizada quando se considerava não haver condições para a pega de caras. Como os toiros atuais, não apresentam problemas, a pega de cernelha muito raramente é usada.

Porém, quero acreditar que entre os que hoje vestem a jaqueta de Forcado, se fosse preciso, sempre se encontraria, como no passado, quem fosse, ou seja, capaz de enfrentar, toiros com as características dos de antanho. Mas não em número suficiente para todos os grupos de forcados existentes. Diferença há, sim, é no que hoje leva os jovens a pegar toiros.

Do meu tempo e do Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, fundado por Nuno Salvação Barreto, só este se despediu com pompa e circunstância. Eram merecedores de homenagem, o seu trajeto de Forcado e aficionado. Foi diferente o comportamento dos que o ajudaram a formar e impor o Grupo de Forcados que com tanta eficiência comandou.

Com a mesma calma e simplicidade com que tinham entrado, sem qualquer evento especial a protagonisar o seu gesto, deixaram de pegar. Aliás o mesmo se passou com os fundadores do G.F. de Santarém e, segundo me parece, com os do G.F. de Montemór no qual até o Cabo, o valentíssimo e estóico Simão Malta, se despediu discretamente. Já Ricardo Rhodes Sérgio, figura ímpar de Forcado e Cabo do G.F.de Santarém, também se despediu com passeio às costas dos elementos do Grupo, volta à praça e lágrimas. Foram as exceções.

A verdade porém, é que as discretas despedidas de outros tempos, se deviam a sofisticado narcisismo, ao exagerado escrúpulo, à altura romanticamente existente, de demonstrar que por pegar toiros nada “recebiam”. Nem sequer a publicidade ao seu acto. Que este era praticado por diversão, pelo gosto pela aventura. Pela sensação de arriscar por nada o que outros só por dinheiro o fazem – a Vida. Presentemente é diferente.

A diferença não está na valentia, no estoicismo, no espírito de aventura que caracteriza o Forcado. Essas qualidades, nuns mais noutros menos, manteem-se em todos que envergam a jaqueta de ramagens. Está, sim, no desejo de protagonismo que caracteriza o Forcado atual. Quer ser falado, dar nas vistas, empola as suas atuações. Despudoradamente e de forma exaustiva, a internet é aproveitada para propagandear e valorizar a mais simples pega. O valor pessoal posto acima do coletivo. Como se uma pega não fosse uma acção de conjunto.

Recentemente escrevi um apontamento sobre o GFAL. Não fiz qualquer citação individual. Não por não houver quem a merecesse mas porque, na minha interpretação, para o êxito de uma pega todos que nela tomam parte, contribuem. Assim, o sucesso de um grupo de forcados reside no seu conjunto e não nos valores individuais que possa ter. Mas não devem ser esquecidos os que contribuíram para o prestígio do GFAL. Essa a razão de ter divulgado o nome daqueles que fizeram com que o mesmo fosse conseguido. Cimentaram o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, foram intérpretes dos seus melhores momentos.

Noutra ocasião, a seu tempo, falarei daqueles que mais se distinguiram nesta ascensão. Nunca esquecendo que por muito bom que o Forcado seja, sozinho não consegue o seu objetivo. Precisa sempre da ajuda dos companheiros.

Carlos Patrício Álvares (Chaubet)

 

 

 

 

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