A RAZÃO DESTE BLOG

SOBRE AS PEGAS DE TOIROS

NÃO HÁ NO MUNDO ESPECTÁCULO MAIS NOBREMENTE SUGESTIVO, MAIS VIRILMENTE BELO, MAIS LEGÍTIMAMENTE PORTUGUÊS.                                                     RAMALHO ORTIGÃO

A maior parte do que tenho escrito, tem sido acolhido com simpatia pelos excelentes blogues taurinos existentes na internet. Por ordem alfabética: “BARREIRA DE SOMBRA” – “DIÁRIO TAURINO” – “NATURALES TAUROMAQUIA”. Sensibilizou-me e agradeço a consideração. Todavia, para mim, o tempo começa a ser cada vez mais reduzido e a vontade de desabafar, cada vez maior. Resolvi por isso criar o meu próprio blogue. Tal como eu, não terá muito tempo de vida mas, enquanto existir, abrigará o ponto de vista que tenho do espectáculo tauromáquico em geral, dos da jaqueta de ramagens, em particular.

ATENÇÃO: APRESENTO NESTE BLOGUE O QUE TEM SIDO A MINHA ATUAÇÃO, EMBORA NATURALMENTE MODESTA, A FAVOR DO ESPETÁCULO TAUROMÁQUICO. OS ANOS QUE ELA TEM, FAZEM COM QUE ALGUNS TEXTOS JÁ ESTEJAM ULTRAPASSADOS, OU MESMO, TENHAM PERDIDO UTILIDADE. CONSIDEREI PORÉM, QUE OS DEVIA INCLUIR. SEJA COMO FOR, DEMONSTRAM O MEU INTERESSE.

Ponto de vista que só os “rapazes do meu tempo”, aqueles que ainda cá se encontram, compreenderão bem.

São eles, caso falhe algum é inadvertidamente:

Do Grupo de Forcados Amadores de Santarém: António Paim e Joaquim Grave, os mais “veteranos” dos octogenários, quase a passarem para a faixa etária seguinte (desejo que o consigam), pertenceram ao escol de jovens que criaram os alicerces do Grupo; Fernando e Vasco Fernandes, o mais velho a influenciar o mais novo, dois irmãos a contribuírem para a sua consolidação; João Duque, outro caso de consanguinidade, continuou a honrar o seu apelido, como o fez seu irmão Jorge, extraordinário rabejador; Joaquim Monteiro, FORCADO de antes quebrar que torcer, por isso colecionador de “trouxas” (na gíria taurina- toiros pesados, possantes); José Samuel Lupi cedo deixou o grupo. Perdeu-se um bom forcado mas a aficion, ganhou um excelente cavaleiro tauromáquico; Júlio Borba, mais um a juntar a este conjunto de valentes que continuam a aguentar estoicamente, os “derrotes” que a vida vai dando.

Do G.F.A. Montemor: Américo Chinita de Mira, que chegou a chefiar o Grupo. Arrojado e atrevido, de pequena estatura, tinha um coração que quase não lhe cabia no corpo.

Do G.F.A. Lisboa: Acácio Lyra Vidal “pau para toda a obra”. Atuando em qualquer lugar ajudou a disfarçar a falta de elementos que, ao tempo, talvez devido às dificuldades que os toiros, apresentavam, o Grupo sofria. Aliás, a carência de candidatos a forcado, era pecha extensiva a quase todos os grupos da altura. Não havia a “avalanche” de grupos e candidatos a forcados a que se assiste hoje; Eduardo Salvação Barreto, irmão mais velho do inesquecível Nuno Salvação Barreto, fundador do G.F.A. de Lisboa. Até ir para África, foi uma espécie de seu braço direito.

Do G.F. A.Vila Franca de Xira: José Lourenço, que foi para Moçambique onde se fixou sendo, com os seus conhecimentos e valentia, de grande utilidade para os grupos que aí se formaram.

Do G.F.A. Alcochete: Gaspar Penetra, arrojado e estoico, uma das grandes glórias dos FORCADOS de Alcochete; António Luís Penetra, mais um Penetra a engrossar a lista desses afoitos e aficionados pegadores.

Do G.F. Profissionais de Lisboa: Adelino de Carvalho, que foi “cabo” deste Grupo, impôs aos seus comandados, com o seu valor e exemplo, a forma de pegar “à amador”- dando vantagem ao toiro.

Do G.F.A. da Estremadura: onde João Piçarra de Brito, rijo e decidido beirão, teve oportunidade de mostrar toda a sua garra e determinação; Henrique Delgado Martins, algarvio de nascença, enquanto se manteve em Portugal e representou o Grupo, demonstrou que o gosto pela pega, pela fruição do perigo, não se circunscreve à Estremadura, Ribatejo e Alentejo; José Delgado Martins, do mesmo sangue, seguiu-lhe o exemplo, deixando igualmente recordação imperecível entre os “aventureiros” (um forcado é um aventureiro) desse tempo; Manuel Saragga Seabra, devido ao seu valor foi assediado por vários grupos, mas nunca abandonou as amizades que o perigo vivido em conjunto proporciona.

Do G.F.A. da Chamusca: António Timóteo, seu cabo, cujo comportamento como Forcado o fez merecedor de um LOUVOR PÚBLICO das forças vivas locais e, mais tarde, uma Medalha.

Essencialmente é para mim e para eles, que sentiram o ser Forcado como eu senti que escrevo. Para dar satisfação a mim próprio. Sem qualquer outro objetivo. Algum protagonismo que tal facto me possa dar, não é porque o procurasse.

Mas como a subida de qualidade dos toiros, se fez de forma gradual e não repentina, eventualmente, os da geração que se seguiu à nossa, também me poderão entender.

Assim, entre uns e outros, com aqueles que resistem à erosão do tempo e ao chamamento da Morte, ainda podemos formar dois grupos de forcados. O GRUPO DE FORCADOS AMADORESOS OCTOGENÀRIOS”, com a chefia a ser disputada entre António Paim e Joaquim Grave, os dois com igual competência para tal.

Os  da  geração posterior, os “SEPTUAGENÁRIOS” é que têm de escolher cabo. Dificuldade? só na seleção a fazer. Entre eles, sobram os que têm currículo para tal.

Não perguntei se alinhavam neste projeto, mas quando se chega a estas faixas etárias, para “pegas” destas, penso que estamos sempre prontos.

Todavia, para evitar desagradáveis interpretações, devo dizer que na “avalanche” de candidatos a forcados que se foi e vai seguindo (vestir a farda de forcado parece ter-se tornado moda), surgiram e surgem, rapazes com motivações idênticas às dos citados “dinossauros”.

Capazes de  merecerem a ideia altamente positiva que tenho do FORCADO. E que quero manter, nem que seja só por saudosismo. Considero-o um jovem idealista, em estado puro que, romanticamente arrisca a vida, sem pensar em qualquer compensação material. Só o testar o seu comportamento perante o perigo, a sua capacidade de lutar contra a adversidade, de viver a solidariedade que a execução de uma pega suscita, de desafiar a Morte arriscando a Vida, o atrai.

ATENÇÃO

Penso que, de algum modo, este escrito vai chegar ao conhecimento dos OCTOGENÁRIOS e dos SEPTUAGENÁRIOS citados. Fotografias de atuações vossas, iriam validar e valorizar este texto.Esperando uma resposta agradável.                   TLM: 966627159

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AGORA OS SEPTUAGENÁRIOS

Como já disse, entre os septuagenários e os que estão lá perto, há tanto por onde escolher que, sei, alguns me vão escapar. Aceito todos os reparos mas, afirmo, a acontecerem, não foi intencional. Temos pois, por ordem alfabética:

Grupo de Forcados Amadores de Santarém – Alexandre Lourenço Marques, rijo beirão atraído pelo ambiente taurino vivido na Escola Agrícola de Santarém. Corajoso, entroncado e forte, após tirocínio no Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, continuou a mostrar as suas potencialidades no conjunto ribatejano. Normalmente eram para ele as “bombas” que surgiam (toiros grandes, pesados).

António Pereira Bernardino, um dos bons primeiros ajudas que o grupo teve, só suplantado por João Franco, oriundo do G.F.A. de Évora e pelo inesquecível António Patrício. Em certo período, quase se pode dizer que foi João Franco e o saudoso e polivalente Vasco Delgado a aguentar o prestígio do conjunto escalabitano.

Caetano Cunha Reis, outro que pôs ao serviço do G.F.A.S., a valentia e determinação que sempre o caracterizaram. João Belo, outro de antes quebrar que torcer. Não voltava a cara, por mais agressivo que o toiro fosse. Outra mais-valia do Grupo. José Carrilho Landeiro, jovem cheio de possibilidades, que um infeliz acidente, impediu de as explanar em pleno.

João Dotti, dos que mais se entusiasmou com a fama do G.F.A.S. e mais a defendeu. Tanto com a sua atuação em praça, como fora dela em conversas informais. Este “amor” pelo G.F.A.S. era tanto, que o transmitiu aos seus filhos José e João, que foram dois excelentes forcados. Não do grupo santareno, mas do de Vila franca de Xira, sua terra natal. João, com qualidades de chefia, chegou a ser seu cabo. José pegador sóbrio, de confiança, muito contribuiu para o bom nome que o G.F.A.V.F.Xira, conseguiu.

João Ramalho, homem de ação, ganadeiro e aficionado ferrenho, não podia ficar indiferente ao chamamento. Foi com assinalável brilho que envergou a jaqueta de ramagens. Luís Freire Gameiro, a ordem alfabética que resolvi utilizar, fez com que ficasse para último, o melhor ou, pelo menos, um dos melhores pegadores de caras da sua época. Decidido, bonito a chamar e com bons braços, as suas pegas eram quase sempre muito aplaudidas. De forma natural, filho de peixe sabe nadar seus filhos, Francisco e Luís, foram igualmente excelentes Forcados.

Grupos de Forcados Amadores de Montemor: considerando os anos de atividade e não o ano da sua fundação, o segundo grupo de forcados amadores mais antigo. Houve outros de formação anterior mas que tiveram efémera existência. António Francisco Ramalho foi dos melhores pegadores que o coletivo teve, e o mais popular. Autor de grandes pegas, foi dos que mais contribuiu para a valorização do Grupo.

António Manuel Zuzarte e Simão Comenda (não os posso dissociar um do outro). Formaram a dupla de cernelheiros mais completa e eficaz que até hoje vi. Resolveram muitos problemas embora algumas vezes, mesmo sem estes existirem mas para animar uma corrida que decorria insipida, recorressem a esta pega, mesmo quando não era bem necessária. Porém, tal era a espetacularidade que davam à sua atuação, que chegava a ser o público a pedir a sua intervenção. Nunca negada pois a aficion que possuíam, a tal impedia. Aliás, tanto um como outro, em situações extremas ou só para satisfação pessoal, pegavam de caras. Simão teve ocasião de o fazer destemidamente no México.

O inesquecível Simão Malta levou um pequeno grupo de Forcados a esse grande país. Quando foi necessário, dada a escassez de elementos, Simão não vacilou em bater as palmas a um toiro que vinha desembolado. Como todos os que eles pegaram. Na imprensa, o chauvinismo azteca havia diminuído o valor dos portugueses por serem embolados os toiros que iriam enfrentar. Picados no seu orgulho, haviam reunido – Simão Malta, Simão Comenda, Manuel Augusto Ramalho, Armando Félix, João Cortes, António Maltês, Francisco Chaveiro, Francisco Caldeira e João Arnoso. Por unanimidade, “à FORCADO”, decidiram pegar os toiros mesmo nessas condições.

Em Monterrey Simão foi à cara, de um corpulento bicho, há mais de dois anos a “estagiar” nos chiqueiros da praça. Resultado, ele e a primeira ajuda, Francisco Chaveiro, mandados para o hospital. António Maltês tentou duas vezes a sua sorte sem resultado e o mesmo sucedeu a João Arnoso. Os dois para a enfermaria. Mas, de algum modo, estava em jogo o nome de Portugal. Tal facto mexeu com o brio dos portugueses presentes. João Cortes, acompanhado dos “sobreviventes” do bandarilheiro Ludevino Bacatum, do cavaleiro Pedro Louceiro e, apesar da idade, Simão Malta, conseguiram finalmente pegar o bruto. Até o próprio animal se deve ter rendido a esta demonstração de coragem e estoicismo.

Grande jornada de lusitanismo, aplaudida de pé pela assistência e mais tarde citada com grandes títulos pelos jornais mexicanos. João Cortes no dia seguinte foi ao hospital visitar os feridos, acabou por lá ficar por estar pior que os visitados. Simão recuperou à pressa e, três dias depois lá estava ele, mal curado mas solidário, a auxiliar aqueles “heróis” numa corrida em Juarez. Enfim, todos tiveram o comportamento que me leva a ter a “paixão” que tenho pelos que são verdadeiros FORCADOS. Autentica epopeia, quase ignorada pelos escribas taurinos “portugueses” da altura.

Os forcados incomodam. Mexem com egos carentes de protagonismo. Isso leva-os a depreciarem a pega, o comportamento do forcado, resumindo-o em uma ou duas linhas de texto. (atualmente mantem-se quase a mesma filosofia).

Mas se é tão fácil pegar um toiro, porque não o fazem eles que tanto invejam o entusiasmo que o forcado desperta? É o saberem que há quem faça tal raciocínio, que origina a sua pouca simpatia pelos forcados.

João Patinhas, depois de ter mostrado todo o seu valor no G.F.A. de Montemor, fundou o Grupo de Forcados Amadores de Évora. Tão exigente com os seus comandados como com ele próprio, criou certo mau estar aos que vestiam a farda mais para fugir ao anonimato que pelo prazer de fruir o perigo que a pega de um toiro nos proporciona. Os desentendimentos que esta atitude gerava, resolvia-os ele, pegando quando detetava no grupo hesitação de alguns em fazê-lo. Por coincidência ou consanguinidade, situação idêntica aconteceu com seu filho Bernardo.

À frente do grupo que o Pai fundou, viu a sua chefia contestada. Todavia pai e filho têm já os nomes consagrados nos anais dos bons forcados portugueses. Aliás até ao México chegou a sua fama. De tal forma se têm portado aí os Forcados portugueses que, recentemente, João Patinhas foi convidado a estar presente numa homenagem que lhe fizeram. Soube então ser intenção dos mexicanos erigir um monumento ao forcado. Quer dizer, no estrangeiro, há consideração por uma figura que é símbolo de Portugal. Por cá, onde o Forcado nasceu, anda-se “há vinte e tal anos (!!!)” com um projeto que tem a mesma finalidade. É bem certo o ditado “ninguém é profeta na sua terra”.

Joaquim Zita Cortes, homem de pegas duras. De pouco espectáculo mas muita eficiência, era um dos indicados para os momentos de apuro. José Jorge Pereira, polivalente e de muito valor. Foi primeiro ajuda, pegador de caras e cernelheiro. Não se tendo fixado especialmente em nenhum destes lugares, todos os desempenhou de maneira prática e eficaz, ouvindo merecidos aplausos. Voluntarioso, tentou decidido a cernelha num toiro que já tinha colhido gravemente quatro companheiros. Entrou no curro no meio dos cabrestos agarrado ao toiro. Criou um momento de tensão na praça mas, felizmente, a sua temeridade não teve consequências desagradáveis.

Um tanto anárquico, tendo como único objetivo pegar toiros, devido às suas qualidades de Forcado, chegou também a atuar no G.F.A. de Santarém e no G.F.A. de Lisboa. Joaquim Manuel Morais, embora tenha iniciado com assinalável êxito sua carreira no de santarém,  foi no Grupo de Lisboa que mais mostrou as suas qualidades. Com cite imponente e bons braços, foi um bom reforço para o grupo da capital. Miguel Capinha Alves, primeira ajuda de mérito, foi pedra basilar na ascensão do G.F.A de Montemor. Atento e interessado pelos problemas dos colegas, contribuiu com o seu espírito de camaradagem para a boa harmonia e coesão deste grupo.

AVANÇANDO NO TEMPO

A citação de ex-forcados octogenários ainda entre nós foi relativamente fácil. Mesmo falhando um ou outro por falta de memória ou desagradável esquecimento não foram muitos os que encontrei.

Com os septuagenários já a coisa foi diferente. Tive até que “esquecer” alguns nomes. O que me custou um pouco. Se continuasse a seguir o mesmo sistema, iria encontrar cada vez mais nomes a salientar e mais reclamações a serem feitas por não terem tido igual tratamento.

Assim, a partir de agora, se esquecer alguém não é intencional e aceito observações, vou destacar só aqueles que tenha visto atuar e me tenham impressionado mais.