Forcado Identifica o nosso espetáculo tauromáquico

Um Povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio. Fatalista e sonâmbulo. Um Povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom e guarda ainda, na noite da sua inconsciência, como que um lampejo misterioso da ALMA NACIONAL.

GUERRA JUNQUEIRO

Foi deste Povo que nasceu o Forcado, misterioso lampejo da alma nacional. Apesar das frequentes colhidas mortais que tal temeridade causava, havia sempre quem não se amedrontasse e quisesse experimentar. O público, entusiasmando-se com esta audácia, começou a exigir a presença dos “homens do forcado”, como passaram a ser identificados, nos espetáculos taurinos que se realizavam.

As touradas foram adquirindo grande popularidade. Depressa surgiu quem as aproveitasse com a finalidade de obter lucro. Evidentemente, os forcados, devido à projeção adquirida, eram imprescindíveis nesses eventos.

Modestos, ignorando a sua real valia, nada reivindicavam. Aceitavam sem protestos a ridícula paga que lhes dava o organizador da tourada. Sendo muitas vezes, como hoje em dia também acontece, os triunfadores eram, (e são), os menos dispendiosos. Na generosidade da assistência, a quem se dirigiam de barrete na mão, encontravam a compensação suplementar, que os confortava um pouco.

E chamavam-lhes profissionais! Não! Tinham, sim, uma valentia, estoicismo e aficion desmedida. Quem já esteve à frente de um toiro, sabe dar o valor a estes HOMENS. Para mais nas condições em que os toiros se apresentavam. Raramente tinham arranque rápido e de largo. Eram bravios e não bravos. Corridos e com idade. Era preciso “ir buscá-los”. Ter o “incómodo” de entrar nos seus terrenos.

Galope com frequência gazapeante e derrote incerto. Era vulgar investirem com as mãos à frente, erguerem os cornos ou adiantarem um deles quando do embate com o pegador. Ensarilhavam.

A cernelha, hoje caída em desuso por desnecessária, devido à qualidade que os toiros adquiriram, era a modalidade a que se recorria com frequência, devido a essas más características. Por isso ser considerada pega de recurso. Classificação com a qual não posso concordar. Vi grupos, por terem cernelheiros de exceção, mandarem voluntariamente toiros para a cernelha, apenas por verem que dava mais espectáculo que daria a pega de caras.

Contudo, apesar das consequências nefastas que tais confrontos propiciavam e do pouco que ganhavam, não faltava quem se aventurasse. Como digo no livro “À UNHA!…OS FORCADOS”: lê-se na revista Toureio Nacional de 9/6/1918: “ Conheceis algum forcado rico pela profissão…? Evidentemente que não. Conheceis somente, na sua maioria, homens inutilizados, morrendo devido aos estragos internos e, sempre na maior miséria”.

Perante isto, poderá dizer-se que era a miragem do lucro que levava estes homens a enfrentar toiros destes? E quantos não terão morrido anonimamente, sendo só recordados na memória de familiares e amigos?

Os espanhóis, ciosos dos seus heróis, indiferentes ao estrato social que possam possuir, dão ao Toureiro o mérito que merece “e lhe é pago e bem pago. Nós, com uma figura que, com motivações transcendentes e enigmáticas em que o dinheiro pouco ou nada conta, praticando uma modalidade onde, como o obituário taurino revela, “também se pode morrer”, não a valorizamos. Não realçamos a poesia e romantismo que a sua atitude comporta. (quando é tomada por verdadeiro amadorismo…)

Porém o ser gente de modesta condição, a ganhar tal protagonismo, constituiu um desafio para as classes sociais mais privilegiadas. Primeiro a Nobreza, depois a Burguesia, não quiseram ficar atrás do povo.

Forcado – Símbolo de Portugalidade

“Fruto do desejo de autoafirmação inerente a toda juventude a “pega”, é uma autêntica fábrica de heróis desajustados no tempo. Intérpretes de um antigo ritual que dificilmente se adapta ao mundo atual.

De uma forma abstracta, sem mesmo ter consciência da transcendência do seu gesto, o Forcado, encarna as qualidades rácicas o gosto pela aventura e pelo perigo. A temeridade, imaginação e o sonho, que instigaram os portugueses de outrora a meterem-se mar dentro em frágeis caravelas, à procura de novos mundos. O toiro é, para o Forcado, o gigante Adamastor que é preciso vencer. É o poder que ele desafia e procura dominar.

Enfrentar um toiro, representa um corajoso e violento acto de rebeldia e audácia.”

Até meados de 1970, com carácter permanente, o número de grupos de forcados existente, estava muito longe do actual. A dificuldade residia em encontrar quem tivesse disposição para pegar o tipo de toiros que saiam. De arranque tardio, trajectória curta e defeituosa, embate incerto. Daí haver dificuldade em conseguir arregimentar os oito elementos que tradicionalmente entram numa pega de caras. (Se bem que, hoje em dia, já não seja bem assim. Se há problema não só oito a resolve-lo. Saltam os “excedentários” a ajudar).

Para obstar a esta falta de candidatos a forcado, criou-se até, naquele tempo, aquilo a que chamei de ” bilhete com mangas”. Convidava-se um companheiro de café ou boémia para assistir a uma corrida em que o grupo entrasse. Era um passeio e bebia-se uns copos. Assegurava-se.

Chegados ao destino “surgia” uma contrariedade. O empresário (por vezes inocente bode expiatório) negava-se a dar o bilhete de ingresso ao inocente “pendura”. Vinha então a ideia salvadora: “Fardas-te!” Só para entrares. Encorajava-se.

Apanhado na ratoeira o convidado não tinha coragem de dizer que não. Entrava depois nas cortesias “só para que se alcançasse o número estabelecido de oito forcados fardados em praça”. Dizia-se.

No decorrer do espectáculo, quase sem dar por isso, lá estava ele envolvido na pega a ajudar.Este expediente no entanto, fez nascer em alguns destes convidados o gosto pelo pegar toiros e encetaram a carreira de forcado.

OBSERVAÇÃO) Claro que é necessária  muita coragem e atrevimento, para desafiar os mastodontes de seiscentos e tal quilos que começaram a aparecer. Mas não mais que para enfrentar os toiros de quatrocentos e setenta a quinhentos quilos que no passado surgiam. É que estes pesadões, têm uma qualidade que os seus irmãos de antanho só episodicamente possuíam. Qualidade essa que “facilita” a actuação do pegador.

Todavia a pega de hoje não é mais fácil ou menos perigosa. “Pelo menos por enquanto, não se pode contar como certo um comportamento homogéneo e complacente do toiro. Mas…é mais cómoda a sua concretização. Sem terem porém a espectacularidade de outros tempos. O que acaba por ser negativo para o prestígio da pega. Do forcado. Que, quanto maior for o teste, o perigo a que ele se submete, mais admirado e aplaudido é.

No entanto, quando um jovem se destaca do grupo e desafia uma agressiva “montanha” de seiscentos e muito  quilos de carne e músculos, cria no público uma expectativa feita de respeito e admiração. A praça “cala-se” em apreensivo e reverente silêncio.

O toiro investe. Atento o pegador recua, controlando a velocidade da investida e a sua trajectória. Recebe-o curvando o corpo pela cintura e deixando-o “entrar”. Fecha-se com convicção.

O meu entusiasmo é idêntico ao dos espectadores. Levanto-me, bato palmas, aplaudo. Mas este arrebatamento acaba depressa. Não há mais expectativa.

Agarrado ao toiro, eventualmente com a companhia do primeiro  ajuda, o pegador segue ao encontro do grupo, dos ajudas. Estas fazem o que delas se espera e a pega acaba junto às tábuas.

Entretanto eu e a assistência já nos sentámos. Sabemos que as sacudidelas dadas pelo toiro na sua correria, só esporadicamente terão força para o livrar do pegador.

Tudo limpo. Tudo correcto. Ausente a luta. O vencer de dificuldades que valorizam a pega. A actuação do forcado. Aquilo que faz vibrar o público. Que o faz premiar o grupo com volta à praça a agradecer aplausos. Prémio atualmente raro. O que, algumas vezes, é uma injustiça. Que por vezes provoca nos forcados um sentimento de revolta que leva a atitudes menos próprias – quem não se sente…..

Deve haver porém, ponderação na interpretação do adágio.

Recentemente um grupo de forcados, dos mais prestigiados, enfrentou um curro que, tanto pelo trapio e peso, para cima de seiscentos quilos, como por procederem de uma das ganadarias mais conceituadas, impunham respeito.

Só a disponibilidade mostrada para pegar tais brutos, merecia uma volta à praça de prémio. Até por os toiros terem sido ovacionados ao entrar na arena.

Porém, nem a excelente prestação que o grupo teve, evidenciando uma coesão, um acerto de actuação, que tornou “fácil” o que, talvez para outro grupo, podia ser problemático, levou o público a consagrá-lo com a volta à praça.

Tal situação fez o cabo do grupo tomar uma atitude pouco consentânea com o comportamento habitual do forcado amador.

Temos visto e achamos mal, cavaleiros a imporem a volta à arena sem ser pedida pelos espectadores. Têm uma desculpa, são profissionais. Precisam de dar nas vistas. Quanto mais tempo na arena mais conhecidos se  tornam.

O forcado amador ter comportamento semelhante é que já custa a entender.

É bom vermos o nosso esforço, o nosso valor, reconhecido e elogiado como merece. Contudo, o objectivo do forcado amador, não são as palmas. Os aplausos. É para sua satisfação pessoal que pega. O saber, o sentir que esteve bem, é o que lhe interessa. O resto vem por acréscimo.

Ver o cabo, perante a injusta apatia da assistência, tomar a iniciativa de chamar o seu grupo para dar a volta que a assistência não lhe concedeu, não me parece bem. Nem o ter convidado igualmente cavaleiros e ganadeiro, este com inteiro merecimento, aliás, atenua a precipitação da atitude.

A apatia do público, poderá ser atribuída a poucos conhecimentos. É verdade. Mas também, à falta de combatividade, de expectativa das pegas. A sua previsibilidade diminui-lhes o impacto da expectativa.

Quando os toiros eram mais combativos, complicados, obrigavam os forcados a maior esforço e entrega, os espectadores não se esqueciam de chamar os forcados a darem merecida volta.

No entanto, o peso e ímpeto da investida dos toiros actuais, tornam o embate com o pegador, bastante violento. Também e, pelas mesmas razões, as “sacudidelas” que vai dando durante o percurso são, muitas vezes, custosas de suportar. Tão fortes como  derrotes. Por essa razão se dá, frequentemente, o nome de derrotes ao que eu chamo de “sacudidelas”.

A TEMPO: “DERROTE,REPITO, É O MOVIMENTO PRATICADO PELO TOIRO QUANDO, PARADO, HUMILHA. FLECTE OS QUARTOS TRASEIROS, APOIA-SE NOS RINS, FINCA AS MÃOS NO SOLO OU ERGUE-AS LEVADO PELA FORÇA DO BALANÇO ADQUIRIDO.EMPREGA TODA A SUA FORÇA E AGRESSIVIDADE NO ATAQUE QUE É DEFERIDO.NORMALMENTE DE BAIXO PARA CIMA:”

O toiro de há cinquenta, setenta anos atrás, punha toda a sua força e agressividade no embate inicial. Não guardava força para prosseguir a corrida. Era por isso um choque duro. Violento. Seco. Bastante contundente.

Não conseguindo com o embate, livrar-se dos forcados (normalmente o cara e o primeiro ajuda), parava, humilhava e tentava fazê-lo, através de derrotes violentos em que punha toda a sua força.

O objectivo natural e lógico do ganadeiro, é a rentabilidade. Procura pois um produto o mais vendável possível. Com cada vez mais qualidade. É de crer, que tal fará crescer, ainda mais, o número de grupos de forcados e pretendentes a tal. Com estes toiros é raro haver “estranhos” a que o pegador se tenha que adaptar. A pega não deixa de ter perigo mas, digamos, é mais propicia. Mais… convidativa.*

O toiro tem uma investida clara, nobre, não a pára ou refreia para derrotar. Empurra e sacode em movimento. Em suma, tem um comportamento encorajador para os aprendizes de forcado.

Postas estas considerações, devo dizer que encaro com simpatia a especialização, preparação física e anímica dos novos forcados. Vibro com satisfação quando vejo um forcado chamar um dos colossos que agora aparecem. Aguentar a força do embate. Reagir com sucesso às “sacudidelas” que o toiro vai dando na sua correria. Indo assim ao encontro dos ajudas. Viajar depois até às tábuas. Onde hoje em dia, acabam as pegas. É digno de se ver.

Uma observação mais atenta das fotos das pegas que apresento nesta obra, levará à confirmação de tudo que já escrevi sobre o comportamento dos toiros que surgiam na época a que me refiro.

Vê-se o toiro que em vez da investida rectilínea dos dias de hoje,  que o leva ao encontro dos ajudas, a fugir delas ao mudar de trajectória; o que investe e pára logo, tentando sacudir o pegador; o que marra adiantando as mãos; o que o faz torcendo a cabeça; o que marra alto; o que o faz por baixo; o que ensarilha tornando o embate incerto; o que acomete adiantando um dos cornos.

Observa-se o toiro com as mãos levantadas e toda a força apoiada nos rins e quartos traseiros, numa demonstração de agressividade extrema, do empenho do toiro em atacar quem o desafia. O toiro com a mão ou a pata no ar ou mal assente na arena. Desequilibrando assim a actuação do pegador.

A dificuldade e espectáculo da pega de cernelha ao tempo, muito utilizada. Vêem-se toiros saltando na tentativa de se livrarem dos pegadores; a escoicear, procurando atingir o rabejador; no meio dos cabrestos obrigando o cernelheiro a saltos acrobáticos para o agarrar; o toiro a ser sustido pelo rabejador, evitando que moleste o forcado caído na arena; torcendo-se na tentativa de apanhar o cernelheiro.

Enfim, todas as fases que tornam (tornavam…) a pega de cernelha tão apreciada, difícil e vistosa. A ser exigida pelo público.

Primeiras ajudas, como já afirmei, lugar ingrato mas precioso a que poucas vezes se dá o real valor, também se vêem. Das de sacrifício, valentia, solidariedade, companheirismo.

Mesmo quando o toiro foge ao grupo, ele está lá. É o segundo a enfrentar a investida do toiro. Em segundos avalia que tipo de ajuda deve dar. Vemo-lo de frente, saltando sobre o “cara”, abafando com o seu corpo a força do embate. De lado, procurando aconchegar ou corrigir o colega mal equilibrado nos cornos do toiro. Não se vê nem as fotografias mostram mas muitas vezes acontece. Quando cai ao dar a ajuda, ainda tem ânimo para se levantar e tomar parte na pega.

NOTA) Procurei ter fotografias de todos os forcados a que me referi de forma especial. Não consegui completamente tal objectivo Nalguns casos porque no tempo do velho Lucilio Figueiredo, o primeiro e, por muito tempo, o único fotógrafo taurino que conheci, pouco se ligar a fotografias para recordação. O marketing ainda não estava implantado. As lembranças de proezas feitas, ficavam na memória e no coração. Não eram utilizadas para criar protagonismo ou currículo.

Curiosamente, passados muitos anos, quando se intensificou o hábito de julgar as pessoas mais pela aparência que pelo concreto, houve quem recorresse às fotos do saudoso Lucílio Figueiredo. Pagando por elas, já se vê, dez vezes mais que o pedido inicialmente. Mas…tudo bem. Mais fotos existissem.

Conheço o imenso ego dos forcados. A sua susceptibilidade. Sei por isso que muitos se sentirão injustiçados por terem sido preteridos. Não terem sido referidos. Não foi por mal.

REPITO: TENHO PELOS QUE SE ATREVEM A ENFRENTAR, A MAIOR SIMPATIA. ABSTRAINDO ATÉ, A SUA MAIOR OU MENOR VALIA. MAS MENCIONAR TODOS ERA IMPOSSÍVEL.

Forcado Profissional

A Tauromaquia, nomeadamente o Forcado, tem sido um tema pelo qual sempre me interessei de forma, até, exagerada. Esta longa e intensa vivência deu-me um profundo conhecimento dos seus meandros.

Com a idade a impedir-me de poder continuar a gozar esse mundo, como gostaria e fiz durante vinte e dois anos, refugio-me agora nas recordações e na observação das diferenças que ele foi e vai sofrendo. Tanto nos objectivos e procedimentos dos humanos, como no dos seus “comparsas”, naqueles que, afinal, são a base de tudo, e condicionam as acções dos primeiros – OS TOIROS.

São setenta anos de aprendizagem e observação. A ver para além do que os olhos mostram A raciocinar sobre a razão das mudanças que o tempo vai operando no comportamento de uns e de outros. Nomeadamente naqueles que mais prestigiam valorizam e realmente identificam, o nosso espectáculo tauromáquico – OS FORCADOS

Quem começou a “pegar toiros à unha”, como se dizia de inicio, foram os mais humildes. Aqueles que com o seu “cajado”, a que chamavam “forcado”, conduziam o gado. Sem cite ou número certo de elementos, enfrentando gado de fraca qualidade era, digamos, “à molhada,” que “agarravam” os toiros. Só mais tarde, possivelmente inspirados na força militarizada, formada por oito alabardeiros, encarregada de impedir o acesso do toiro ao camarote real, que se fazia por uma rampa que começava na improvisada “arena”, se estabeleceu o número de oito “agarradores”. Como também eram tratados.

Porém, pela forma anárquica como procediam, ou pela agressividade dos adversários que, até 1686, D. Pedro II ter imposto o uso de bolas metálicas ou de Dona Maria II, em 1838, ter criado a embolação à portuguesa, vinham com as hastes íntegras, muitos pagavam com a vida ou graves ferimentos a sua ousadia.

Os espetáculos tauromáquicos intensificam-se

Os espetáculos tauromáquicos iam-se intensificando. A procura de toiros também. Os ganadeiros deixaram de ver a sua criação apenas como um adorno. As ofertas para corridas de beneficência, acabaram. Descobriram que a sua venda podia ser um negócio rentável. Mais no país vizinho onde pagavam melhor. Para isso porém, era necessário um produto de qualidade. Basicamente possuir, a par da bravura, uma rápida reação ao cite, investida rectilínea, um derrote vertical.

Esta evolução foi-se a pouco e pouco concretizando e o pegar toiros, a tornar-se mais acessível. No entanto, na minha perspetiva, se teve efeitos positivos para os ganadeiros alguns dos quais, conseguiram impor-se em Espanha, para a nossa Tourada, principalmente para o Forcado, foi prejudicial. A pega passou a ter mais, digamos, beleza estética, mas perdeu grande parte da emocionada expectativa que a caracterizava..

Não é só no citar mandão, elegante, decidido. No fechar-se com a correção com que agora o fazem e no aguentar-se na cabeça do bicho que está, o que impôs a pega e o forcado. (opinião pessoal que, sei, já não conta para o campeonato…mas…).

Noutro tempo, quando da lide a cavalo, a atenção dos forcados concentrava-se no comportamento do toiro. Não se distraia a conversar ou a olhar a assistência. Tinha que se ver bem que defeitos o toiro apresentava (e havia sempre alguns) e estudar a forma de os combater.

Se tinha que se entrar em terrenos de compromisso para conseguir a investida. Torcer o corpo para o poder encaixar numa córnea com embate imperfeito. Para obter o mesmo, ter que se saltar pois que esta vinha alta ou, ter que se baixar porque se dava o contrário. Quando estes cuidados não resultavam, recorria-se à já referida cernelha ou, tentava-se a pega de caras até se ter êxito ou ir para a enfermaria. (O que acontecia com certa frequência).

Quando tocava para a pega, fazia-se um respeitoso e reverente silêncio na praça – (ainda hoje tal sucede, numa demonstração inequívoca de como o desempenho do forcado é respeitado e apreciado). O público observava, preocupado e ansioso.

Era a emoção que a atitude do forcado lhe transmitia. A sua admiração ao ver um toiro, cheio de problemas e agressividade, a investir e o pegador, decidido, determinado, desafiá-lo batendo as palmas. Emocionava-o o seu gesto, pelo que possuía de “loucura”, estoicismo e querer. Era este sentimento que o levava a chamar com frequência os grupos para darem a volta à praça a agradecer aplausos. Coisa que hoje pouco se vê. Não por falta de valor dos forcados mas sim, porque os toiros que enfrentam, não lhes darem oportunidade para o mesmo brilhantismo que os de há setenta ou sessenta anos proporcionavam.

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O Forcado Amador – Pegas “fáceis” não favorecem

Hoje, a previsibilidade das reações do toiro, tornou a pega mais exequível. Acontece também estes apresentarem menos problemas, tendo os forcados actuais, mais conhecimentos e treino para os resolver. Fatores que tornam as pega menos emotivas. A habitual concretização à primeira tirou-lhes um pouco do anterior impacto. Presentemente, são escassas as vezes em que tal não acontece.

Tais condições são favoráveis a que surja, quase todos os anos, um novo grupo de forcados. Creio que passam já dos cinquenta. Grande parte só fazendo meia dúzia de corridas ou, mesmo, uma ou duas mas….fardam-se e dizem-se forcados. Está na moda.

Contudo esta análise, aparentemente redutora dos forcados deste tempo, está longe de tal intenção. Continuo a sentir a pega de toiros, com o mesmo romantismo que me levou a ser Forcado. Tenho pois pelos que se põem à frente de um toiro, a maior simpatia e admiração. Para mim, embora possa parecer mal aos pretendentes a requintados para quem, só o toureio a pé tem valor, apesar de apreciar todas, a “PEGA” continua a ser a modalidade tauromáquica que mais aprecio.

Quando o forcado salta à arena, observo-lhe todos os movimentos e reações. Pelo modo como se comporta no cite, adivinho a vontade, o querer com que está. Pela maneira como recebe o toiro, vejo se o compreendeu. Avalio a convicção com que se fecha. Como os grupos, de uma forma geral, estão todos a ajudar bem, os derrotes que o pegador sofre pouco contam. Apesar dos toiros terem mais peso e por vezes derrotes, até mais fortes que os de antigamente, estes são amortecidos pelos ajudas. Não dá para avaliar os braços do que vai à “cara”.

Depois, não acredito que na infinidade de rapazes que dizem serem forcados, exista o espírito que, na minha conceção, define o Forcado Amador. No entanto, para minha satisfação, ainda há uns tantos em que ele existe. Isto porque a valentia, o estoicismo, o desejo de aventura e o companheirismo que a pega de um toiro encerra, não é, como tenho dito e repito, monopólio de nenhuma geração. Em todas haverá sempre, estou convencido e esperançado, quem pegue toiros apenas para desafiar o perigo. Autoanalisar-se perante o mesmo. E não somente para dar nas vistas. Sair do anonimato.

Inspirados pelo êxito dos pegadores profissionais, começaram a surgir qrupos de forcados amadores a tomar parte nos espetáculos. Nada recebiam e só entravam nos de beneficência. No entanto, escolhiam as ganadarias. As mais ásperas continuaram a ser para os apelidados de profissionais. Todavia em 1944 surgiu um grupo de forcados, os Amadores de Lisboa, a não recusar ganadarias, a pegar quaisquer toiros, e esta estrutura modificou-se.

Atrevidos, davam vantagens aos toiros. Pegavam “à amador” aqueles que, normalmente iam para os profissionais. Depressa deram nas vistas. Foram mesmo eles os coveiros do forcado profissional. Tiraram-lhes a vaidade e o orgulho. Já não se podiam gabar de serem os que corriam maior perigo.

Os profissionais não gostaram de perder esta posição e tal situação ocasionou mesmo, violentos confrontos físicos entre elementos do G.F. Amadores de Lisboa e alguns forcados profissionais. Todavia o aparecimento deste grupo contribuiu igualmente para subir a qualidade da execução das pegas.

Os forcados amadores ao tempo existentes, porque não era por falta de coragem mas por preconceito, que não aceitavam todas as ganadarias, sentiram-se “picados”. Não tardou que seguissem o exemplo dos “lisboetas”.

Também os “profissionais”, perdido o destaque que o pegar os toiros mais problemáticos lhes proporcionava, começaram a não considerar compensatório o magro “salário” (!?) que recebiam do empresário e da assistência. Concluíram que o título de forcado amador era mais valioso. Tal constatação fez com que se passassem a apresentar como forcados amadores.

Acalmados os ânimos, amadores e ex-profissionais, passaram a pegar ou tentar pegar, tudo que saia para arena, sem escolha de ganadarias. O que acabou por ser benéfico para todos.

Consequências da ingenuidade (ou vaidade?)

Como disse, os forcados amadores tomavam parte nas corridas graciosamente e só nas que eram de beneficência. Contudo, quando os espetáculos passaram a ser organizados por empresários, consideraram e, muito bem, não ter qualquer justificação, serem eles a pagar as despesas inerentes à sua participação nesses espetáculo. Impuseram então que fossem os empresários a pagar o que eles apresentassem como despesa.

Esta no entanto era aleatória. Com frequência, muito acima daquilo que o empresário previa. O que fez este desejar ter o seu controle. O surgimento de grupos de amadores, formados por ex-profissionais, deu-lhe a oportunidade. Estando habituados à modesta tabela que tinham como profissionais, não exigiram mais do que já recebiam.

Assim os empresários, com o pretexto de que para a montagem do espectáculo, era imprescindível saber antecipadamente os seus custos, propuseram aos grupos amadores pagar-lhes o mesmo que pagavam aos ex-profissionais. Esta pretensão começou por ser recusada.

Mas, em vez de se manterem firmes na recusa, com receio de perder corridas para os recém-chegados amadores (ex-profissionais), acabaram por ceder, aceitando o mesmo que eles.

O empresário sabe que no espectáculo tauromáquico o Forcado é o único que age por puro prazer, por gosto. Consciente desta apetência, aproveitaram a oportunidade criada pela atitude dos ex-profissionais, para pressionarem os amadores – “não aceitam assim, arranjo outro grupo”. Foi o argumento. Ingenuamente, receando a ameaça, cederam. Mas fizeram mal.

Na altura eram eles que mais animação davam ao espectáculo. Quem corria mais risco e os que mais palmas recebiam. (Os “recém-chegados” ainda não tinham aprendido, como depois aconteceu, a pegar “à amador”). Se tivessem mantido a mesma atitude, estou convencido que seria o próprio público a obrigar os empresários a recuar.

Não o fazendo, criaram uma situação que comprometeu para sempre o estatuto de forcado amador. Postura que uma entidade que se diz defensora dos forcados, a ANGF – Associação Nacional dos Grupos de Forcados, estranhamente avalizou, em vez de a procurar combater.

Devia ter sabido defender os seus associados. Não admitir pagamentos fixos. À profissional. Atendendo a possíveis desmandos que pudessem subsistir nos festejos após corrida, capazes de inflacionar os gastos dos forcados, dispor-se a aceitar eventuais queixas de empresários, sim. Mas nunca o estabelecimento de um “cachê”. Como se fazia aos profissionais.

A sua Acão seria aceitar as reclamações. Avaliar se eram, ou não, as contas apresentadas demasiado elevadas. Depois, se desse razão ao empresário, com o dinheiro que recebe das Actuações e quotas dos grupos associados, ressarciam-no do que considerasse ser exagero. Seria depois o Grupo, digamos, prevaricador, a reembolsar a ANGF desse dinheiro. Defendia-se assim o prestígio do Forcado Amador. Evitava-se a ideia de que lhe é atribuído uma espécie de “salário fixo”.

Outra iniciativa que esperava da ANGF. Fundada em 2000 devia arranjar forma de, com o dinheiro que recebe desde a sua fundação – quando da inscrição de associados – 125euros e 5% dos espetáculos tauromáquicos realizados -, fomentar o convívio entre os seus associados. Satisfazendo assim, o estabelecido na alínea “B” do art.º 2º do seu Estatuto. Lembrar-se que a união faz a força e que esta é necessária para defender a Tauromaquia, que continua sendo atacada pelos pretensos amigos dos animais.

Isto, em vez de ser a ANGF – associação nacional geradora de fricções – já várias vezes envolvida em questões com grupos de forcados, que até já chegaram a Tribunal! ( Impensável…).

Contudo sobre a ANGF que, quando se formou, tanta esperança me deu, mas cujo desempenho me desilude, irei escrever mais tarde.

 A  T  E  N  Ç  Ã O

 Penso que, mais tarde ou mais cedo, este escrito vai chegar ao conhecimento dos OCTOGENÁRIOS citados e dos SEPTUAGENÁRIOS existentes. Fotografias de Actuações vossas, o iriam validar e valorizar.                                                                                                           TM966627159

 A internet deu-me oportunidade de, por escrito, registar os meus pensamentos. As minhas divagações e observações sobre o espectáculo de que mais aprecio. Há muito que o faço de maneira avulsa e dispersa. Este blogue será pois, um balanço do que tem sido a minha atividade neste domínio.

Se pode, ou não, interessar a alguém o seu conhecimento tem importância, sim, mas relativa. Exponho as minhas opiniões com o mesmo espírito que me levou a ser forcado. Alguns dos escritos que  aqui reproduzo já estarão ultrapassados. Todavia funcionarão como um legado de alguém que tendo uma imagem romântica do espectáculo tauromáquico,  não se conforma quando essa imagem é prejudicada.

O que é nacional é bom

Contra os Forcados nem os delirantes talibans anti taurinos protestam. Logicamente. Não os podem acusar de infligirem maus tratos aos toiros. Antes pelo contrário. Deviam até ser louvados. São eles que lhes dão oportunidade de aplicar a pena de Talião. A não ser que a exagerada e fundamentalista cruzada pelo fim das touradas seja motivada, não por respeitáveis sentimentos de simpatia pelos animais, mas sim pela frustração e inveja que o protagonismo adquirido pelos  os toureiros lhes causa.

Neste caso nem os forcados escaparão. Serão criticados pelos possíveis traumas psicológicos causados aos bichinhos por os dominarem à força de braço. ( capazes  disso são eles….)

Todavia, a simpatia que tenho pelo Forcado e o valor que lhe atribuo, leva-me a idealizar que a atitude não beligerante dos “anti” , se deve antes à admiração que ele desperta. Ao reconhecimento do seu valor. Depois, certamente pessoas de elevados sentimentos, tementes a Deus e à Pátria, seguindo o lema de que O QUE É NACIONAL É BOM, têm-lhe a consideração que merece. Respeito. O que não acontece com uma associação, constituída  precisamente, para defender o prestígio do Forcado. A ANGF – Associação Nacional dos Grupos de Forcados. Na verdade não é a primeira vez que constato tal facto e o denuncio. Pelos vistos, sem qualquer resultado.

Ao ler a revista taurina espanhola 6TOROS6, lá vinha o anúncio de espetáculos em Vila Viçosa, Campo Pequeno, abertura oficial da época e mais quatro no decorrer do ano. Em nenhum vinham referidos forcados.

Que os nossos vizinhos, por chauvinismo, não queiram publicitar um elemento que pelo seu comportamento, pode rivalizar com sucesso com os seus “heróis”, nada podemos fazer. Agora que a ANGF, a quem já anteriormente chamei a  atenção, consinta que a desconsideração se mantenha, é que não me conformo.

Os vetos, as avaliações de quem entra e não entra na ANGF, a inglória luta pela proibição dos burladeros  na arena e as querelas em que anda tantas vezes metida, tiram-lhe tempo. Sei. Mas, pelo respeito que o Forcado merece, tenho esperança que arranje algum tempo para resolver este imbróglio. Que aliás se resolve facilmente. Basta que se tenha interesse nisso.